O comediante Bill Maher vai lançar semana que vem, em 3 de outubro, um documentário crítico sobre religião, Religulous, que promete ter seus momentos cômicos, talvez algo na linha dos filmes do Michael Moore (Tiros em Coulumbine, Farenheit 9/11, Sicko). Bill será o próximo convidado do programa The Daily Show, que é muito bem conhecido nos Estados Unidos, no dia 30 de setembro. A entrevista estará disponível no site do programa a partir do dia 1 de outubro. O trailer (legendado em português!) promete um bom filme. Ele já esteve no Larry King (entrevista sem legenda, em inglês).
Há dois documentários muito pouco conhecidos até o momento que são críticos a religião, The Root of All Evil de Richard Dawkins e The God Who Wasn't There. Eu gostei bastante deste segundo, que é sobre o problema de Jesus histórico, i.e. se Jesus realmente existiu ou não. O problema desses filmes é que eles são ácidos demais para conseguir balançar o crente comum. Eles mais produzem um sentimento de revolta do que iluminação, na minha opinião. Espero que esse novo filme de Bill seja mais sereno, e com isso consiga maior espaço na mídia e distribuição, e possibilite educar mais as pessoas sobre o problema do ópio do povo.
Eu certamente vou assistir esse filme. ![]()
Enquanto isso, podemos ver vários vídeos no YouTube do Bill Maher.
Religulous
domingo, 28 de setembro de 2008 | Postado por Leonardo Motta às 01:33 0 comentários
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Sem Deus
Steven Weinberg escreveu recentemente para o The New York Review of Books sobre religião: Without God. Para quem gostar desse artigo, o Weinberg publicou uns anos atrás um livro com uma coleção de ensaios sobre ciência e suas adversárias culturais: Facing Up (desconheço se há edição em português). Vale a pena! ![]()
terça-feira, 16 de setembro de 2008 | Postado por Leonardo Motta às 21:17 1 comentários
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Igreja universal é condenada por explorar deficiente mental
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u436429.shtml
Te tomam tudo, a vida, a grana e a alma
E ainda querem que você tenha calma
Por isso eu vou falar (pode falar)
Vou contar (pode contar)
Sobre os filha da puta que só querem te roubar
Fundam uma igreja ora vejam, onde já se viu
Enriquecer com a fé alheia (puta-que-pariu)
E é inútil tentarmos abrir os olhos do povo
Pois se um abre os olhos, mil olhos fecham de novo.
E eles dizem que você está com o demônio,
mas o demônio habita no seu patrimônio.
E eles farão o favor de tomar toda sua grana,
porque a grana pra eles é uma coisa profana
Só que aí, o demônio vai parar com quem?
No bolso do filha da puta que fica rico dizendo amém!
Essa não é a primeira ação do mesmo gênero. Pessoas que doaram para a Universal, Reino de Deus, Renascer e a Igreja Católica, já entraram com processos na justiça. Uns anos atrás a Folha fez um levantamento de alguns desses processos mais curiosos. Entre eles, havia o caso de um pedreiro, que solicitou a troca de uma escada para fazer serviço numa igreja da Universal, porque a que o pastor arranjou não ia sustentá-lo. Ao que o pastor insistiu: "Se tens fé, não cairás". O pedreiro teve traumatismo e quebrou vários ossos. Processou depois a Igreja.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008 | Postado por Leonardo Motta às 22:26 0 comentários
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Deus é imaginário
Alguém que prefere manter o anonimato sustenta dois excelentes sítios na Internet,
- God is Imaginary (Deus é imaginário)
- Why won't God heal the amputees? (Por que Deus não cura os amputados?)
Irei assumir que você é um cristão educado. Você tem um diploma universitário e foi treinado para pensar crítica e racionalmente sobre o mundo em que vivemos. (...) Você alguma vez já pensou em usar a sua erudição para refletir sobre sua fé? Sua vida e sua carreira demandam que você pense e aja racionalmente. Vamos aplicar suas habilidades de pensamento crítico enquanto discutimos algumas questões simples sobre sua religião.
- Por que Deus não cura os amputados? Como um cristão, você acredita no poder da reza e acredita que Deus está por ai curando doenças. Mas todos nós reconhecemos que isso não se aplica aos amputados: nós não vemos no nosso dia-a-dia pernas ou braços serem regenerados espontaneamente. Não importa o quanto se reze, amputados não recebem nenhum milagre de Deus. Se você é uma pessoa inteligente, tem que admitir que esta é uma pergunta interessante. Por um lado, você acredita que Deus responde preces e realiza milagres, mas por outro, sabe que isso não se aplica a membros amputados. Como resolver essa discrepância?
- Por que há tantas pessoas passando fome no mundo? Por que Deus estaria preocupado com você receber um aumento [permitam-me expandir aqui: por que Deus estaria preocupado com o seu sucesso profissional em geral], respondendo suas preces e fé na existência Dele, mas ignoraria a fome e a miséria de milhares de crianças na África subsaariana? Como um Deus que é amor e se preocupa com o bem estar e destino dos humanos pode fazer isso?
- Por que Deus não cura os amputados? Porque Deus é imaginário, e um produto da imaginação humana não responde aos anseios reais dos humanos. Não pode nos ouvir, muito menos alterar o curso natural do universo. Não pode curar um resfriado, muito menos câncer, AIDS ou regenerar um membro amputado. Ao invés disso, precisamos de Medicina, que possui evidências estatísticas concretas de sua existência e eficácia.
- Por que há tantas pessoas passando fome no mundo? Porque Deus é imaginário. A miséria não é um resultado de um plano místico por parte de uma figura da superstição humana, tampouco o sucesso capitalista. Estes fatos são resultados de uma intricada dinâmica social, que envolve a história, os recursos naturais da geografia, o funcionamento do capitalismo baseado em lucro — alguém sai ganhando as custas de outro que saiu perdendo —, política e crendices. Se quisermos resolver este problema, não devemos o atacar com fé. Devemos entender essa complicada dinâmica social e apontar onde ela pode ser melhorada para minimizar a diferença em oportunidades de diferentes povos.
sábado, 14 de junho de 2008 | Postado por Leonardo Motta às 10:06 9 comentários
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As variedades da experiência científica
Acabei de ler nessas férias o belíssimo livro The Varieties of Scientific Experience (As variedades da experiência científica) de Carl Sagan. A versão original pode ser encontrada aqui e a edição em português de Portugal aqui. O subtítulo do livro é uma visão pessoal da busca de Deus. Até onde eu saiba é o único livro de Sagan que fala explicitamente sobre religião. O livro é póstumo e foi publicado no final de 2006, editado pela sua esposa Ann Druyan e consiste nas Palestras Gifford de 1985 apresentadas por Sagan. Esta série de palestras é sobre teologia natural, i.e. aspectos da religião que não são obtidos por revelação divina. Ao longo da sua existência, esta série de palestras já apresentou idéias de diversos intelectuais, teólogos e cientistas, como os físicos Arthur Eddington ('26-'27), Niels Bohr ('48-'50), Werner Heisenberg ('55-'56), Freeman Dyson ('85), Roger Penrose ('92-'93) e humanistas do porte de Hannah Arendt ('72-'74) e Noam Chomsky ('05). O livro contém belas imagens coloridas do cosmos, bem típicas da paixão do astrônomo pelo mundo natural e também um apêndice com transcrições parciais das sessões de perguntas e respostas ao final de cada palestra.Com sua diplomacia intelectual característica, Sagan fala sobre as razões para acreditar em um Deus ou outros entes sobrenaturais que poderiam intervir no rumo do universo em especial no quotidiano humano. Sem palavras ásperas ou ataques, Sagan tenta construir um momento de reflexão para todos que tem interesse em avaliar sua fé. É um livrinho muito salutar para qualquer pessoa, e é um dos poucos com alguma chance de abalar a fé dos religiosos liberais, contrastando bastante com os mais vendidos de Richard Dawkins e Sam Harris. Infelizmente, como Sagan mantém um discurso sereno e cheio de conteúdo ao invés de inflamar corações, é bem provável que ele não figurará entre os mais lidos.
Aqui eu gostaria de colocar alguns pedaços do livro que mais me chamaram atenção.
Metafísica
Hoje em dia a maioria das pessoas não disputaria com a ciência o que produz o relâmpago. Embora o princípio seja o mesmo, há pessoas que aderem a concepções de mundo logicamente inconsistentes que aceitam a explicação científica para o relâmpago mas acreditam que apenas no que diz respeito a criação do universo e da vida, e somente nisso, há um dedinho de Deus. O capítulo 3 do livro de Sagan versa sobre esse debate. Algo de muito interessante que aprendi nesse capítulo é que as moléculas orgânicas mais simples — os blocos químicos que compõe os aminoácidos, proteínas, DNA e RNA — são muito comuns em lugares inesperados do universo, como por exemplo a cauda de um cometa. Além disso, no próprio sistema solar há corpos como os satélites de Saturno Iapetus e Titã que contém água e moléculas orgânicas (como cianeto, hidrocarbonetos, metano, álcoois). Titã em especial contém uma atmosfera dominada por nitrogênio, assim como é a da Terra (nós vivemos numa atmosfera quase 70% de gás nitrogênio). Carl Sagan expressa sua admiração por esse mundo:
Eu acho que é algo muito interessante que há um mundo no sistema solar exterior carregado de material para vida. E nós podemos calcular, dada a taxa com que esses materiais são formados hoje em Titã, quanto destes materiais acumulou lá ao longo da vida do sistema solar. A resposta é equivalente a uma camada de pelo menos cem metros de espessura por todo Titã e possivelmente quilômetros de espessura. [...] E, coincidentemente, há também evidências que há uma camada de oceano de hidrocarboneto líquido. Então, apenas pense sobre esse ambiente. Há terra, provavelmente há oceano. A terra é coberta por essa camada orgânica que cai do céu. [...] O que aconteceu com esse material ao longo de 4,6 bilhões de anos? Quão complexas são as moléculas lá?
Folclore sobre extraterrestres
É mais provável que a Natureza sairá do seu rumo ou que um homem contará uma mentira?
Nós nunca vimos no nosso tempo a Natureza sair do seu curso. Todavia há evidências de que milhões de mentiras já foram contadas no mesmo tempo. É portanto pelo menos um milhão para um que um relator de milagres está mentido.
Ou na versão de David Hume, com um pouco mais de significado para o cristianismo:
Quando alguém me diz que viu um homem ressuscitar dos mortos, eu imediatamente me pergunto o que seria mais provável: esta pessoa estar mentido ou ter sido enganada, ou o milagre relatado ter realmente ocorrido. Eu sempre escolho a opção menos milagrosa. Se a falsidade do relato for mais milagrosa do que o evento que ele descreve, então ele pode dizer que comanda meu credo ou opinião.
A hipótese de Deus
O ápice do livro talvez seja o capítulo 6, intitulado A hipótese de Deus. Sagan começa com um debate sobre as tentativas de justificar a existência de Deus, incluindo idéias hindus, porém se concentrando na tradição judaico-cristã-islâmica. Ele desnuda cada uma das justificativas. Depois segue-se uma breve avaliação dos problemas inerentes a existência de Deus, como o clássico problema da antiguidade grega que evidencia que Deus não pode ser ao mesmo tempo omnipotente, omnisciente e bondoso:
Deus deseja acabar com o mal, mas não é capaz?A propósito desta parte do livro, há uma outra observação interessante apontada por Albert Einstein. Um Deus pessoal que intervém no universo a nosso favor discorda com o princípio básico da ciência de que há leis imutáveis que regem o comportamento do universo, leis que podem ser inferidas por meio de experimentos reprodutíveis. O eletromagnetismo macroscópico é descrito por equações — as equações de Maxwell — e não pela vontade de uma consciência que altera como lhe convém o comportamento da luz, da eletricidade e do magnetismo. Ou a ciência pode utilizar-se de modelos lógicos e racionais para descrever o universo sem ambiguidades ou não pode. Neste último caso, nossos modelos científicos devem estar errados.
Então ele não é omnipotente.
Ele é capaz, mas não deseja?
Então ele é malevolente.
Ele é capaz e também deseja?
Então ele pratica o mal?
Ele não é capaz nem deseja?
Então porque chamá-lo de Deus?
— Epicuro
Para encerrar o capítulo 6, Sagan faz uma pergunta legítima e simples que merece uma resposta honesta. A tradição judaico-cristã-islâmica é baseada na idéia de que algumas pessoas (entre elas, supostamente: Abraão, Moisés, Jesus e Maomé) receberam comunicação direta de Deus, sabedoria então registrada nos livros ditos sagrados. É também um fato universal que todas religiões precisam se validar de alguma forma apresentando idéias sobre como ocorrem intervenções sobrenaturais que "provam" as alegações dessas religiões (e.g. a psicografia no espiritismo ou a encarnação da pomba-gira na umbanda). Dito isto, a pergunta de Sagan é: por que Deus (ou outros deuses) não deixaram claro e evidente para todos os seres humanos sinais de Sua existência? Por exemplo, o Deus cristão bem que podia ter colocado um crucifixo maior que Júpiter em órbita ao redor do Sol. Ou ao invés de ter secretamente fornecido a Moisés os dez mandamentos no alto de uma montanha, quando ninguém estava por perto para ter certeza, poderia tê-los escrito em hebraico na superfície da Lua. É incrível como o Deus da Bíblia preocupou-se em repassar informações sobre as regras e legitimidade de escravização (e.g. Êxodo 21:2-7), o uso da pena de morte para crianças mal criadas, feiticeiros, prostitutas, ateus e homossexuais (e.g. Deuteronômio 21:18-21, Levítico 20:27, Levítico 29:1), quais vilas o exército de Israel deve invadir e destruir (Números 31:14-18), etc., todas afirmações perfeitamente passíveis de terem sido escritas por seres humanos comuns (uma análise crítica apontaria que o Velho Testamento foi mais provavelmente escrito por líderes políticos e generais de exército do que uma consciência sobrehumana), mas foi incapaz de fornecer uma única frase que seria impossível de ser entendida ou concebida por humanos na época em que as escrituras foram preparadas. Ora, Abraão e Moisés tiveram o privilégio de ver Deus eles próprios, então nada mais razoável que Deus tivesse dado a eles alguma informação que seria compreendida apenas no século 21 e que serviria da prova de sua existência. Por exemplo, ele poderia ter repassado entre os dez mandamentos: "Não ultrapassarás a velocidade da luz". Tal mandamento passaria como um enigma legítimo até o início do século 20. Com a descoberta da relatividade ficaria claro que este mandamento fora realmente comunicado a Moisés por uma consciência muito melhor informada sobre o universo do que qualquer humano daquela época poderia ser. Desta forma haveria evidências da existência de tal consciência não apenas para Moisés como para todo homem do século 21. No entanto, não há uma única mensagem matemática ou código sobre o universo escrito na Bíblia, e as poucas passagens literais sobre a planura da Terra e a origem da vida se provaram equívocas. Por que Deus não deixou prova clara de sua existência dessa forma ou por que ele cometeu erros tão grosseiros sobre a organização do cosmos?
Eu gostaria de enfatizar que o argumento precedente se aplica não apenas ao Deus das escrituras sagradas, mas igualmente a alegações sobre a existência de espíritos e outras formas sobrenaturais. Há uma ampla gama de idéias que parecem apelar para nós como evidências das religiões mas que são construídas de forma a serem deliberadamente impossíveis de serem experimentadas por todos os humanos. Portanto é legítimo e bastante honesto perguntar: se esses entes tem os poderes alegados, a importância alegada para a organização da vida humana, por que se provam escusos para quase todos nós? Por que não deixam claro a sua existência?
terça-feira, 8 de janeiro de 2008 | Postado por Leonardo Motta às 09:04 6 comentários